Daniel Avila

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Geertz, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

com um comentário

  • “Segundo a opinião dos livros-textos, praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos determinados que definem o empreendimento. O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma ‘descrição densa’” (p. 4)
  • Descrição densa – salto qualitativo da etnografia hermenêutica“entre o que Ryle chama de ‘descrição superficial’ do que o ensaiador (imitador, piscador, aquele que tem o tique nervoso…) está fazendo (‘contraindo rapidamente sua pálpebra direita’) e a ‘descrição densa’ do que ele está fazendo (‘praticando a farsa de um amigo imitando uma piscadela para levar um inocente a pensar que existe uma conspiração em andamento’) está o objeto da etnografia: uma hierarquia estratificada de estruturas significantes em termos das quais os tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadela, as imitações, os ensaios das imitações são produzidos, percebidos e interpretados,e  sem os quais eles de fato não existiriam” (p. 5)
  • “O que o etnógrafo enfrenta, de fato (…) é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro aprender e depois apresentar” (p. 7)
  • “fazer a etnografia é como tentar ler (no sentido de ‘construir uma leitura de’) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado” (p. 7)
  • As descrições etnográficas devem ser calculadas em termos das construções que imaginamos que os sujeitos “colocam através da vida que levam, a fórmula que eles usam para definir o que lhes acontece” (p. 11)
  • começamos com as nossas próprias interpretações do que pretendem nossos informantes, ou o que achamos que eles pretendem, e depois passamos a sistematiza-las” (p. 11). Etnografia é uma interpretação de segunda e terceira mão. Por definição somente o sujeito faz a interpretação de sua própria cultura.
  • “O etnógrafo ‘inscreve’ o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente.” (p. 14)
  • “há três características da descrição etnográfica: ela é interpretativa; o que ela interpreta é o fluxo do discurso social e a interpretação envolvida consiste em tentar salvar o ‘dito’ num tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo em formas pesquisáveis” (p. 15)
  • “O problema metodológico que a natureza microscópica da etnografia apresenta é tanto real como crítico (…) [que] Deverá ser solucionado – ou tentar sê-lo de qualquer maneira – através da compreensão de que as ações sociais são comentários a respeito de mais do que elas mesmas; de que, de onde vem uma interpretação não determina para onde ela poderá ser impelida a ir” (p. 17)
  • Geertz critica os modelos de interpretação autovalidantes por si mesmos ou validados pelas “sensibilidades supostamente desenvolvidas da pessoa que a apresenta” (p. 17), isto é, aquela que interpreta. Tais abordagens interpretativas – muito presentes na análise de sonhos, literatura, sintomas e culturas – escapam à articulação conceitual e aos modos de avaliação sistemáticos, resultando em uma simples conciliação do dado observado com uma estrutura interpretativa prévia a ele.
  • “Somente pequenos vôos de raciocínio tendem a ser efetivos em antropologia; vôos mais longos tendem a se perder em sonhos lógicos, em embrutecimentos acadêmicos com simetria formal” (p. 17)
  • “Qualquer generalidade que consegue alcançar surge da delicadeza de suas distinções, não da amplidão das suas abstrações” (p. 17)
  • Forma: “o ensaio, seja de trinta páginas ou trezentas, parece o gênero natural no qual apresentar as interpretações culturais e as teorias que as sustentam” (p. 18)

  • O método interpretativo na etnografia assemelha-se ao empregado na medicina e na psicologia profunda. Para estas modalidades clínicas, as medidas obtidas do exame de observação – os sintomas – são subordinadas a uma lei ordenadora, onde a inferência torna-se possível a partir de um conjunto de significantes enquadrados de forma inteligível. No estudo da cultura se aplica um procedimento análogo, porém “os significantes não são sintomas ou conjuntos de sintomas, mas atos simbólicos ou conjuntos de atos simbólicos e o objetivo não é a terapia, mas a análise do discurso social” (p. 18). Mantém-se, assim, entre a etnografia e a medicina e a psicologia, uma correspondência ponto-a-ponto no que tange o uso da teoria, isto é, a investigação do regime de determinação não aparente das coisas.
  • A dupla tarefa da etnografia é a descoberta das estruturas de conceituais onde se inscrevem os atos singulares dos sujeitos observados e a construção de um sistema de análise em cujos termos diferenciam-se os elementos genéricos dessas estruturas de outros determinantes do comportamento humano. O ato que entrelaça essas duas instâncias do trabalho etnográfico é a interpretação, simultaneamente inscrição e especificação, singularização e generalização. Ou, como nas palavras do próprio Geertz, “o dever da teoria é fornecer um vocabulário no qual possa ser expresso o que o ato simbólico tem a dizer sobre ele mesmo – isto é, o papel da cultura na vida humana” (p. 19)
  • “A análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha, cujas afirmativas  mais marcantes são as que têm a base mais trêmula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você não o está encarando de maneira correta. Mas essa é que é a vida do etnógrafo, além de perseguir pessoas sutis com respostas obtusas” (p. 20)
  • O grande desafio que se apresenta ao etnógrafo, deste modo, é o de manter-se em uma posição crítica diante das relações supostamente lógicas entre significantes e significados: “ouvimos falar de integração cultural como uma incongruência de significado, mudança cultural como uma instabilidade de significado e conflito cultural como uma incongruência de significado, com a implicação de que a harmonia, a instabilidade ou a incongruência são propriedades do próprio significado, da mesma forma que, digamos, a doçura é propriedade do açúcar, ou a fragilidade é propriedade do vidro” (p.178)
  • O significado dos atos sociais, como demonstra a sociologia, não lhes é intrínseco, mas sim imposto. A explicação sobre as propriedades dos atos sociais deve ser encontrada, portanto, não em uma entidade social abstrata e transcendente, mas nos próprios sujeitos que realizam e concretizam essa imposição. Analogamente, descobrimos a doçura do açúcar e a fragilidade do vidro quando experimentamos seu gosto e sua queda, e não a partir de uma investigação de suas respectivas composições físico-químicas. Da mesma maneira não encontramos, no interior das formas simbólicas, um conteúdo harmônico, uma taxa de estabilidade e um índice de incongruência. A “natureza da integração cultural, da mudança cultural e do conflito cultural deve ser procurada aí: nas experiências dos indivíduos e grupos de indivíduos, à medida que, sob a direção dos símbolos, eles percebem, sentem, raciocinam, julgam e agem” (p. 179)
  • “A descontinuidade cultural e as desorganizações sociais que dela podem resultar, mesmo em sociedades altamente estáveis, é tão real como a integração cultural” (p. 180)
  • A imagem mais apropriada para metaforizar uma dada organização social não é nunca a de uma teia de aranha nem a de um monte de areia, mas a de um polvo, cujos braços são integrados fraca e separadamente um com o outro e com o processamento central do cérebro do animal e que, não obstante, movimenta-se e conserva-se como “ma entidade viável, embora um tanto desajeitada” (p. 181)
  • A mesma coisa se passa com a cultura. A integração, o conflito e a mudança cultural dão mostras que a cultura não se movimenta como um composto maciço de partes perfeitamente coordenadas, mas procede em deslocamentos desarticulados de suas partes que, ainda assim, conservam um sentido comum. Os impulsos e estímulos que se encontram em um dos tentáculos espalham-se por todo o sistema e reorganizam toda a sua dinâmica. A variável qualitativa de tal processo encontra-se no modo como determinada parte encontra-se intimamente interligada e socialmente conseqüente com o restante das outras partes, de tal modo que sua força impulsionadora é decorrente de tal integração.

Escrito por danielavila

26 26UTC junho 26UTC 2009 às 20:38

Publicado em Uncategorized

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  1. significado dos atos sociais, como demonstra a sociologia, não lhes é intrínseco, mas sim imposto. A explicação sobre as propriedades dos atos sociais deve ser encontrada, portanto, não em uma entidade social abstrata e transcendente, mas nos próprios sujeitos que realizam e concretizam essa imposição. Analogamente, descobrimos a doçura do açúcar e a fragilidade do vidro quando experimentamos seu gosto e sua queda, e não a partir de uma investigação de suas respectivas composições físico-químicas. Da mesma maneira não encontramos, no interior das formas simbólicas, um conteúdo harmônico, uma taxa de estabilidade e um índice de incongruência. A “natureza da integração cultural, da mudança cultural e do conflito cultural deve ser procurada aí: nas experiências dos indivíduos e grupos de indivíduos, à medida que, sob a direção dos símbolos, eles percebem, sentem, raciocinam, julgam e agem” (p. 179)

    A imagem mais apropriada para metaforizar uma dada organização social não é nunca a de uma teia de aranha nem a de um monte de areia, mas a de um polvo, cujos braços são integrados fraca e separadamente um com o outro e com o processamento central do cérebro do animal e que, não obstante, movimenta-se e conserva-se como “ma entidade viável, embora um tanto desajeitada” (p. 181)

    Fiquei pensando nessas duas colocações acima do Geertz e no mundo de hj. Acho que certamente a interpretação dele sobre a realidade que vivemos seria diferente.

    Interessante do Geertz é essa liberdade que ele deu para que interpretássemos as culturas a partir de um referencial próprio – do antropólogo – independente do centro irradiador de significados “oficiais” da mesma. Um desafio arriscado? talvez…”viver é perigar-se” ;) A etnografia continua sendo um método polêmico!

    Cacau Freire

    30 30UTC junho 30UTC 2009 em 20:27


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